Categoria: Notícias Libertárias

  • Ações de solidariedade com os punks detidos na Indonésia pelo mundo

    Desde que a polícia da conservadora província de Aceh, na Indonésia, invadiu um show de punk-rock beneficente a um orfanato local detendo e seqüestrando 65 punks que tiveram que se livrar de piercings e correntes, a cabeça raspada e foram forçados a tomar banho em um rio como forma de limpeza espiritual, diversos protestos de solidariedade surgiram na Indonésia e em outros países.
    Já foram registrados eventos na frente de consulados e embaixadas da Indonésia na China, Chile, Argentina, Suécia, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, com manifestantes carregando faixas e gritando lemas pela libertação e contra o ataque aos punks da província de Aceh.
    Pelo menos até esta última quarta-feira (21 de dezembro) os 65 jovens permaneciam detidos e seqüestrados na escola de polícia de Aceh, fazendo “reabilitação em aulas de bom comportamento, religião e exercícios de conduta militar que visava estabelecer a disciplina” (fotos em anexo).
    Apesar disso, esses jovens punks não mostraram sinais de submissão, pelo contrário. Assim que os policiais viravam as costas, eles gritavam com os punhos cerrados: “O Punk não está morto! Paz!”.
    Vídeos dos protestos:
    Notícia relacionada:
    agência de notícias anarquistas-ana
    Viagem de ônibus —
    No vidro da janela
    a companhia do sol.
    Rogério Togashi
  • [Itália] Projeto Café Malatesta

    A outra produção
    O projeto Café Malatesta nasceu em Lecco em janeiro de 2010 quando se abriu a possibilidade para um grupo de jovens, provenientes de diversas experiências (seja do ativismo, de projetos de autogestão, seja de quem veio de anos de estudos ou de trabalhos precários), de utilizar gratuitamente uma máquina de torrefação de café em desuso, na sede da G.A.S. de Lecco.
    De uma atividade experimental nasceu em um tempo curto um coletivo com vontade de criar uma realidade de trabalho autogestionada e baseada em dinâmicas decisórias antiautoritárias, com a convicção de que um modo diferente de viver a produção e o consumo pudesse ser seguido por uma mudança social no sentido solidário, como alternativa a uma economia capitalista predadora de culturas, territórios, tempos e espaço de nossas vidas.
    Em quase dois anos de trabalho crescente e de numerosas relações com grupos de compradores, círculos sociais, associações, companheiros e amigos, o coletivo se encontrou de frente a importantes escolhas para a direção e as práticas do projeto, apesar da natureza ainda embrionária da atividade e da falta absoluta de capital inicial ter levado e continuar levando a uma grande dificuldade, entre pesar a vontade de decisões éticas radicais por um lado, com a premente necessidade de liquidez para se alcançar o objetivo mínimo da autonomia (constituição de um sujeito econômico autônomo).
    O manifesto do Coletivo
    O grupo constitui atualmente um “Coletivo de Trabalho” autogestionado que quer articular a sua atividade em 5 pontos fundamentais:
    1. Criação de renda a partir de trabalho manual e intelectual e em nenhum caso de lucro ou retiradas incoerentes com a participação e o empenho no projeto coletivo.
    2. Trabalhar com matérias primas produzidas em condições de trabalho dignas, com particular atenção às pequenas realidades privadas de acesso à certificação internacional Fair Trade.
    3. Trabalhar com matérias primas produzidas com respeito ao meio ambiente e ao território com métodos de cultivo biológicos, procurando relações de confiança com pequenos produtores privados do acesso à certificação reconhecida Organic/Bio.
    4. Divisão comum, mediante uma prática constante de assembléias, das escolhas e dos percursos que o projeto empreenderá, rechaçando a formação de dinâmicas verticalizadas e autoritárias.
    5. Procura constante de relações e trocas com aquelas comunidades que tem a intenção de promover a cultura e a prática da solidariedade, do mutualismo e da autogestão.
    O projeto nasce com a vontade de rebater uma lógica de “Comércio Justo” voltada para a caridade e para a beneficência, contrapondo uma solidariedade horizontal entre trabalhadores organizados em realidades autogestionadas, no norte e no sul do mundo.
    A torrefação autogestionada é pensada como um instrumento de emancipação do trabalho precário e das condições de exploração, com o objetivo de desvincular os cultivadores das imposições esfomeadas das grandes companhias de comércio de café e de criar junto com outras comunidades e grupos no território, locais e nacionais, uma rede de produção e consumo paralela e autogestionada, baseada na auto-subsistência ao invés do lucro, na solidariedade ao invés da competição.
    A proveniência do café verde
    A vontade expressa desde as primeiras fases do projeto foi aquela de desenvolver os contatos mais diretos possíveis com os cultivadores, de modo a retirar o lucro dos intermediários e de restituir dignidade e reconhecimento aos trabalhadores. Assim, no arco de dois anos o grupo conseguiu fazer com que a maior parte do café trabalhado proviesse de projetos de solidariedade com as comunidades de camponeses (na Guatemala e em Honduras), enquanto o restante é certificado FairTrade.
    A colaboração com a Coordinadora (coordinadora.noblogs.org), rede libertária nacional que sustenta diversos projetos de cooperação com as comunidades zapatistas de Chiapas, vai exatamente nessa direção: construir redes de solidariedade externas e estruturalmente conflituosas em confronto com os interesses do mercado oficial.
    Desde abril de 2011, a assembléia da Coordinadora decidiu confiar ao Coletivo Café Malatesta o trabalho com o Café Durito provindo das cooperativas zapatistas, que antes vinha importado da cooperativa libertária Café Libertad de Hamburgo.
    A escolha de trabalhar com uma matéria prima eqüitativamente retribuída aos produtores fora das lógicas intensivas da agroindústria e torrada artesanalmente leva inevitavelmente a um custo e, portanto, a preços mais elevados em relação ao café comercializado pelas grandes corporações. O coletivo, consciente de que o preço de venda seja um fator delicado e importante, procura manter custos no mesmo nível de outros cafés solidários e biológicos, para aproximar aqueles sujeitos (trabalhadores mal pagos, precários, desocupados, estudantes e aposentados) que se encontram na posição de ter de consumir mercadorias economicamente produzidas através da exploração de outros trabalhadores e de outros territórios, mas que teriam somente a ganhar com a difusão de redes mutualistas, de produção e de trocas alternativas.
    O Coletivo promoveu uma Campanha Extraordinária de Doações para sustentar os custos relativos à adequação do laboratório, à compra de uma balança e a outros itens necessários para desenvolver a atividade. É possível participar de modo individual ou coletivo, com doações, empréstimos solidários, iniciativas beneficentes, distribuição do café ou promoção do projeto.
    Para informações e contatos: caffemalatesta@autistici.org
    Cristiano – 328 0069751
    Jacopo – 340 5367035
    Para informações sobre o café zapatista Durito: info@coordinadora.it
    Tradução > Carlo Romani
    agência de notícias anarquistas-ana
    Pomar de caquis
    Podados com cuidado
    Sem harakiri
    Umav
  • Videoclipe: “Freedom Road”, tributo a Mumia Abu-Jamal – 30 anos de luta!

    “Freedom Road” [Estrada da Liberdade], canção escrita por Samuel Légitimus – adaptação ao inglês, voz e arranjo por Paris-Sydney.
    Freedom Road”  
    Eles levaram embora tudo o que você tem
    E o que restou, eles ainda não podem dobrar
    Fazê-lo culpado foi o trajeto deles
    Ainda estou aqui e você é meu amigo.
    Seus escritos provam muito para mim, Mumia,
    Você coloca honra e lei
    Acima de tudo, até o fim.
    Trinta anos se passaram
    No corredor da morte, nós nunca soubemos
    Nada sobre o peso
    Que você teve de carregar enquanto cresceu.
    Mas eles não vão te pegar, não, Mumia, não
    Nunca deixaremos que eles vençam
    Não deixaremos que você carregue esta carga pesada
    Enquanto caminha pela Estrada da Liberdade.
    Como Jimmy¹ e Bob² você tem vivido para ver a luz:
    Acreditando que todos os homens
    Podem se levantar por seus direitos.
    Te acusando por crime
    Por detrás de suas balanças eles escondem
    Isto os faz apavorados lá no fundo
    Por saber que a verdade está do seu lado.
    Mas eles não vão te pegar, não, Mumia, não,
    Nunca deixaremos que eles vençam
    Não deixaremos que você carregue esta carga pesada
    Enquanto caminha pela Estrada da Liberdade.
    Estes trinta anos se foram
    No corredor da morte, nós nunca soubemos
    Nada sobre o peso
    Que você teve de carregar enquanto cresceu.
    Nós nomeamos uma rua para você, Mumia
    Uma adorável rua em Saint-Denis
    Unindo as mãos estamos lhe mostrando
    Prova de nossa força e paz.
    Mas eles não vão te pegar, não, Mumia, não,
    Nunca deixaremos que eles vençam
    Não deixaremos que você carregue esta carga pesada
    Enquanto caminha pela Estrada da Liberdade.
    Mas eles não vão te pegar, não, Mumia, não,
    Nunca deixaremos que eles vençam
    Não deixaremos que te impeçam de entrar
    Em sua casa na Estrada da Liberdade.
    Mas eles não vão te pegar Mumia,
    Nós venceremos, nunca seremos dobrados
    Por trinta anos você tem mostrado a todos nós
    Apenas como lutar até o fim.
    Tradução > Marina Knup
    Videoclipe:
    [1] James Baldwin – escritor ativista afro-americano (1924-1987)
    [2] Bob Marley – cantor de reggae jamaicano (1945-1981)
    agência de notícias anarquistas-ana
    Não é meia-noite
    e as mariposas cansadas
    já dormem nas praças.
    Humberto del Maestro
  • Documentário: “Teenage Riot: Atenas”

    Este documentário “gringo” com legendas em português foi lançado recentemente por um grupo de jornalistas que, por conta própria, decidiram aproveitar a greve geral de 17 de novembro último para ir à Grécia e registrar em primeira mão aquele acontecimento. Anarquistas, ativistas da Assembléia Popular de Syntagma, membros do PAME (frente sindical ligada ao Partido Comunista da Grécia) e da GSEE (Confederação de Sindicatos da Grécia), entre outros, são entrevistados no documentário, que também expõe os confrontos entre comunistas e anarquistas. O filme está dividido em três parte e dura aproximadamente 23 minutos no total.
    agência de notícias anarquistas-ana
    chuva de verão —
    meu pai busca o horizonte
    na fresta da janela
    Se-Gyn

  • [Cuba] Brigas de galo na mídia cubana

    O atrativo programa de televisão “Como me contaram” abordou na semana passada, com grande entusiasmo, o tema das brigas de galos. Embora este negócio lucrativo seja promovido pelo Estado cubano, que exporta anualmente cerca de 700 exemplares, este não foi o foco do programa.
    Na minha opinião, esta foi mais uma tentativa de legitimar esta prática violenta. Busquei na imprensa cubana e, com efeito: encontrei alguns artigos que defendem com unhas e dentes o mencionado “esporte”.
    Como muitas vezes acontece, a busca de legitimidade necessita encontrar vestígios que vinculem a gloriosa história da ilha com o assunto em questão. E os acharam.
    O historiador Ciro Bianchi, que é entrevistado a cada semana em “Como me contaram”, relata que em 1956 havia em Cuba umas 500 rinhas de galos.
    Bianchi lembra que o emblema do Partido Liberal carregava a imagem de um “galo fino” em um arado, e figuras políticas, como José Miguel Gómez e Carlos Mendieta (ambos foram presidentes) foram criadores e jogadores de galos. Esqueceram de mencionar o tirano Fulgencio Batista.
    Para Bianchi é motivo de admiração uma história que descreve ao Presidente Mendieta, em cima de um banquinho em uma rinha de galos, atiçando sua ave “assassina” enquanto gritava Viva Cuba Livre! Viva Cuba Livre!
    Para a jornalista Lisanka González, Granma Internacional¹, “as brigas de galo são uma das poucas atividades que alguns povoados ainda praticam desde tempos imemoriais como bastiões da cultura tradicional”, segundo um documento apresentado em 2004..
    “O grito de Liberdade e Independência se deu em um cercado de galos, em 24 de fevereiro de 1895, na cidade de Bayamo, no leste do país, por um grupo de patriotas cubanos que estavam começando assim a segunda guerra da independência”, nos ilustra orgulhosamente Ramón R. Corona, do jornal El Guerrillero².
    Sempre desconfiado quando se começa a invocar à “pátria”, a “identidade cubana”, os “bastiões da cultura tradicional”, os “gritos de independência”. Geralmente há por trás alguma manipulação, algum pensamento retrógrado que se quer impor.
    Historicamente, a questão da briga de galos tem sido utilizada com sutileza e hipocrisia por políticos no poder, que aprovaram ou proibiram tal atividade, dependendo do apoio popular que tinha em cada momento.
    No programa de televisão Bianchi conta como, no final da guerra da independência, em 1898, um grupo de patriotas como Máximo Gómez e Manuel Sanguily, e personalidades da política e da cultura, pedem ao governador dos EUA para suspender as touradas e as brigas de galo.
    O dominicano Máximo Gómez considerava que “este espetáculo sangrento era estranho à cultura moderna”. Para Bianchi, “um homem que tinha visto tanto a guerra e tanto sangue, e tem essa reação…” é algo difícil de entender. Aparentemente a virilidade do líder deveria ser alheia a qualquer demonstração de sensibilidade ou pudor.
    É o governo de José Miguel Gómez que aprova a lei em favor das galarias, com um único voto contra: o de Manuel Sanguily, que considerava tais práticas como contrárias à saúde moral do povo.
    No entanto, com o apoio dos governos corruptos, o negócio foi prosperando. Com o “advento da república livre e independente” (tal como referido no El Guerrillero o que me foi ensinado como governos fantoches), alguns se enriqueceram pelas fortes apostas, enquanto muitas famílias foram à falência.
    O triunfo revolucionário fechou as cercas
    Em 1968, o avanço da “ofensiva revolucionária”, que fechou pequenos negócios privados, acabou também com as rinhas de galo. Determinada moralidade, longe de qualquer senso de respeito aos animais, impôs a censura “revolucionária” a este “bastião da cultura tradicional”, como considera Granma em seu artigo..
    “As aves de combate estavam à beira de desaparecer, no entanto, a previsão de um conhecedor, Guillermo García Frías, além do apoio de Celia Sánchez, deteve a ameaça que pairava sobre eles”, explica Lisanka González o retorno do abuso.
    O comandante García Frías estabeleceu o primeiro criadouro estatal de galos de briga e em meados dos anos 80 o governo descriminalizou as brigas, estabelecendo normas rígidas que ainda permitem rinhas controladas pela Empresa de Flora e Fauna, e proíbem as apostas.
    Em outras palavras: agora se pode matar galos de graça, e legalmente, para o desfrute dos seres humanos, mas, é claro, com o estrito controle do Estado. Os galeiros são geralmente multados entre 1500 e 3000 pesos cubanos se forem apanhados em rinhas independentes, com ou sem apostas.
    No entanto, no mercado informal nacional um bom exemplar segue valendo entre 2000 e 4000 pesos.
    Em Finca Alcona, município de Arroyo Naranjo, se encontra o maior criadouro de galos de briga em Cuba. Ali são preparados, treinados e selecionados antes de serem exportados.
    O centro pertence à Empresa de Flora e Fauna, que em vez de protegê-los os exporta a preços que podem atingir a cifra impressionante de 1000 dólares o exemplar, se forem galos vencedores, e 150 dólares, se for um galo fino comum. Alguns dos galos exportados são confiscados após os ataques que fazem nas rinhas clandestinas.
    Agora, peço-lhes que leiam este trecho do El Guerrillero: “O galo é um animal essencialmente insensível e muito primitivo, sua temperatura é superior a 40º C, o que minimiza a sua capacidade de sentir dor, muito maior que a dos homens e, portanto, tolera tão bem as feridas, digamos que muito melhor que os seres humanos”.
    “São agressivos por natureza, lutam entre si em estado selvagem, e mesmo em condições domésticas, essa é sua razão de ser e o homem, longe de explorar sua situação, tudo o que faz é canalizar isso para equilibrá-lo e humanizar através de uma variedade de medidas e regulamentos, o que inevitavelmente acontecerá, por imperativo da natureza, em um ou outro lugar”.
    É possível escrever algo mais cínico? Quase todos os animais brigam (o ser humano mais que qualquer outro), mas a maioria simplesmente faz demonstrações de força, tipo de desempenho de ataque.
    Pode fazer para marcar seu território, conseguir um par, para defender a presa, ou como modo de treino para a defesa contra predadores. Raramente estas experiências vêm para a morte do concorrente da mesma espécie.
    Só mentalidades distorcidas como as de alguns humanos são capazes de se vangloriar e desfrutar da dor, forçando as aves a lutar até a morte. Muitas vezes até, colocam lâminas ou esporas de aço para ser mais sangrento o espetáculo.
    No artigo do El Guerrillero, o autor chama de extremistas a que têm uma postura crítica diante dessas práticas cruéis.
    Granma, por sua vez, busca a legitimidade das brigas de galo na ciência. Este cita a um grupo de pesquisadores da província de Pinar del Río , “aficionado aos galos”.
    Estes “cientistas” concluíram que estas práticas constituem “… uma tradição do povo cubano imposta durante séculos pela vontade coletiva e que não mudou seu movimento interno, apesar das mudanças sociais históricas que houve ao longo de vários séculos”.
    Sou de Pinar del Río e conheço a paixão das pessoas por galos e pelo dinheiro que produzem. A prática de torturar animais está presente na cultura. Mas por que devemos promovê-la, e até mesmo lucrar com isso? Não seria melhor educar no respeito pelos outros seres vivos que partilham a nossa estadia neste planeta?
    Eu nem sequer sou vegetariano. Aprovo o consumo de alimentos de origem animal, como parte de nossa cultura e da reciclagem natural dos elementos. Mas isso não justifica matar pelo prazer de testemunhar, ou para aliviar nosso tédio.
    De acordo com o artigo 27 da Constituição cubana “O Estado protege o meio ambiente e os recursos naturais do país”. Mas o que se pode fazer se os líderes, empresários, militares e outros que compõem a poliburguesia cubana, são assíduos jogadores tanto em rinhas estatais quanto em clandestinas.
    por Isbel Díaz Torres
    agência de notícias anarquistas-ana
    Entardece,
    Gaivotas riscam o céu
    Flores brancas nascem na mata
    Betty Mangucci
  • [Grécia] Fogo e Pólvora

    Da Indonésia ao Chile…
    Uma proposta para a F.A.I./ F.R.I.
    Uma publicação de membros encarcerados da Conspiração das Células do Fogo
    Ouvimos a música do fogo que vem de longe. As palavras cheiram a pólvora. Do outro lado do mundo companheiro/as rebeldes incendeiam as noites e libertam lugares e momentos. Podemos ouvi-lo/as… Conspiram, planejam, atacam… Não temos de dizer mais nada, deixemos os nossos irmãos e irmãs falar por nós..
    “Somos todo/as Conspiração das Células do Fogo. C.C.F. não é nem uma organização nem somente um grupo. Pelo contrário, é uma expressão antagonista de raiva e desprezo para com a autoridade e as suas estruturas. Para espalhar as C.C.F. precisas apenas de gasolina, fósforos e o desejo de lutar pela liberdade absoluta. Começamos a guerra contra a ordem existente.
    O texto que se segue é dedicado à C.C.F. Mexicana e aos nossos irmãos e irmãs da F..A.I. um pouco por todo o mundo.
    I) O vento sopra contra… da Indonésia ao Chile
    Nestes meses antecedentes, de todos os cantos do planeta, cada vez mais mensagens explosivas de fogo e pólvora cruzam as fronteiras e os mares chegando-nos aqui, às prisões gregas, onde nos encontramos reféns, mas não derrotado/as.
    Palavras misturadas com o fogo e que no seguimento das cinzas de bancos, edifícios governamentais, carros de polícia, laboratórios de nanotecnologia, antenas de satélite, carros de segurança privada e lojas de luxo, trazem uma promessa a amigo/as e uma ameaça ao inimigo. Trazem uma proposta viva da Federação Anarquista Informal (F.A.I.). Uma Frente Revolucionária Internacional (F.R.I.) encontra-se agora organizada na Itália, Inglaterra, Chile, México, Argentina, Rússia, Holanda, Peru, Bolívia, Indonésia, Austrália, Grécia…
    Uma idéia que começou o seu périplo há dez anos atrás, partindo dos irmãos e irmãs da F.A.I. italiana, e que hoje se encontra mais forte do que nunca. A F.A.I. não é, definitivamente, um jogo teórico de palavras e símbolos inofensivos, mas sim uma idéia de viver de forma perigosa e anárquica com todos os nossos sentidos, sem tempo morto e desculpas covardes.
    Muitas das vezes os textos que nos chegam às mãos, como o da F.A.I. italiana, o do/as companheiro/as ingleses da F.A.I. intitulado “Chuva e Fogo”, a declaração da F.A.I. russa, o apelo das 11 organizações anarquistas do México, e muitos mais, enchem-nos de uma sensação estranha.. É essa sensação indescritível que sentimos quando indivíduos e grupos que não se conhecem chegam às mesmas conclusões e sentem os mesmos sentimentos exatamente na mesma altura.
    Esse sentimento explode a cada palavra que destranca a próxima e desenha um caminho para uma revolta comum. É uma das poucas vezes em que não temos muito para dizer. A maior parte dos nossos pontos são cobertos pelo/as nosso/as companheiro/as. Mas não queremos encher o texto de uma série de cumprimentos.
    Sabemos que temos trabalho a fazer e um caminho duro, com diversas batalhas, a percorrer. Agora queremos tornar-nos ainda mais perigosos, ainda mais substanciais, ainda mais anarquistas. É por isso que escrevemos bastante desde dentro das prisões, porque queremos atuar ainda mais.
    II) Fazendo uma “tradução” dentro da tradução
    A comunicação é a pedra chave de toda a nossa estrutura informal. Libertamos cada palavra como se de um convite a uma batalha contra a autoridade se tratasse. Queremos, em cada significado que imprimimos em papel, encontrar um caminho para que este passe da teoria e se transforme em prática. Somente através da prática é que todos os valores teóricos são testados. Contudo, cada palavra que usamos tem a sua origem histórica. Muitas das vezes as mesmas palavras expressam diferentes significados de país para país. A Federação Anarquista Informal (F.A.I.) consiste numa formação anarquista internacional entre indivíduos e células que falam diferentes linguagens, mas que, contudo, se tentam expressar através das suas ações, o seu desejo comum por uma revolução anarquista.
    É por isso que as traduções de textos e de comunicados que circulam pelos círculos da F.A.I. são de grande valor para que se tenha contato com as idéias de outros. Muitas das vezes, ainda assim, uma segunda “tradução” da tradução é necessária para poder explicar algumas palavras que têm diferentes significados de lugar para lugar.
    Fazemos aqui uma primeira tentativa desta dupla tradução para assim clarificar qualquer confusão possível entre companheiro/as. A primeira indicação chegou-nos dos nossos irmãos e irmãs no Chile quando o/as companheiro/as das Columnas Antagonicas Incendiarias (Colunas Antagônicas Incendiárias) ao promoverem o diálogo através da ação, num comunicado em que assumiam a responsabilidade pelo incêndio do Banco Estado em Santiago, expressaram abertamente as suas reflexões relativamente ao uso da palavra revolução e do significado que nós, enquanto C..C.F., lhe damos.
    A sua objeção baseia-se no fato de que normalmente para eles o significado de revolução identifica-se com um levantamento popular generalizado, que é composto através de um súbito despertar da consciência das massas. Essa revolução é normalmente invocada pelos marxistas e por alguns “anarquistas” que justificam o uso da violência revolucionária somente quando as condições sociais estejam desenvolvidas, descartando assim o significado de uma insurreição individual. Portanto, falar de tal revolução é como falar em nome das pessoas, algo que faz lembrar fortemente as vanguardas armadas e a percepção marxista, com a qual não temos relação.
    Certamente é verdade que usamos com freqüência o significado de revolução nos nossos textos, tendo em consideração que para nós é evidente que ao falarmos repetidamente de anarquismo anti-socialista, de anarco-individualismo, da tensão de companheiro/as insurrecionistas e de um niilismo agressivo, seja apreensível o que significa para nós essa definição. Mas muitas das vezes as grandes distâncias, a falta de traduções, assim como o uso específico de cada palavra em cada local, levam à necessidade de sermos mais claros. Clarificamos, portanto, que de nenhuma maneira nos alimentos das ilusões de um vago despertar social futuro que se dê de um momento para o outro, nem de um levantamento popular com características anarquistas. Não temos confiança nas massas que, com a sua covardia e imobilidade, conservam este sistema autoritário. É por isso que não somos somente inimigos do estado, mas também dos valores sociais que o sustêm, que o justificam e que o reproduzem como uma relação social no seu interior. Mesmo os protestos sociais por melhores salários, pela segurança social, por mais direitos, são mobilizações com uma data de expiração, que nos levam de volta à passividade.
    Acreditamos que cada pessoa deve ganhar consciência individualmente, se deve tornar consciente do crime que representa a existência de autoridade, abolindo-a do seu estilo de vida e ao mesmo tempo encontrando companheiro/as que ataquem a autoridade disseminada pelo estado. É por isso que acreditamos na luta minoritária anarquista e na nova guerrilha urbana anarquista.
    Para além disso, o significado de revolução em si mesmo não significa libertação. Não nos esqueçamos que a ditadura dos partidos comunistas foi estabelecida, principalmente, através de revoluções. Não queremos nenhuma revolução que não seja uma revolução anarquista que abula todas as formas de autoridade. É por isso que de agora em diante, para que sejamos claros nos nossos textos e nas nossas ações, falaremos da revolução anarquista.
    Outro mal-entendido que muitas das vezes acontece tem que ver com a nossa referência à luta armada. Sabemos que em alguns outros países, como por exemplo a Itália, o significado de luta armada refere-se à lógica da vanguarda armada própria de décadas anteriores.
    Daí que queiramos clarificar que de nenhuma forma acreditamos em vanguardas iluminadas nem na liderança “revolucionária”. Tudo o que fazemos, fazemo-lo primeiro que tudo para nós próprios. Através dos nossos ataques, comunicamos com outros companheiros, espalhamos os valores anarquistas, atacamos o sistema, negamos o papel da vítima e gozamos as nossas vidas através de mais selvagem e libertadora das suas versões.
    Simultaneamente, queremos implantar um temor hostil ao inimigo, tornando clara a existência de uma guerra civil ininterrupta entre insubordinados e a autoridade. Procuramos aterrorizar os terroristas e fazer com o medo da vingança passe para o seu campo, para as suas mansões, parlamentos, ministérios e delegacias de polícia.
    Tudo isto nos dá uma grande satisfação pessoal. É por isso que nos definimos como anarco-individualistas. Não gostamos de nenhum tipo de opinião que queira transformar a revolução anarquista de um modo de vida genuíno para uma missão militar com regras e líderes ao serviço do “bem-estar” geral da sociedade. Não nos sacrificaremos pelo “bem-estar” de uma sociedade que freqüentemente é pontapeada pelo patrão e ainda diz “obrigada”. Se através dos nossos discursos e ações provocamos questões libertadoras e dúvidas a algumas outras pessoas que põem em causa o estilo de vida moderno, isso será bom, primeiro que tudo, para elas próprias. Seria uma honra e dar-nos-ia uma grande alegria se nele/as encontrássemos futuro/as companheiro/as. E mesmo que assim não seja, nunca abandonaríamos, nem que fosse só por um momento, a batalha contra a autoridade e a nosso crítica anti-social, para que pudéssemos será apreciados por mais pessoas.
    Existe, contudo, mais um parâmetro da crítica ao uso do termo “luta armada”. Uma crítica que nos chega principalmente dos nossos irmãos e irmãs da anarquia insurrecionista. A referência à luta armada pode ser facilmente mal interpretada como uma monomania, um fetichismo pelas armas, como uma hierarquia informal dos meios da luta anarquista que coloca a luta armada como a forma de ação suprema.     
    Nós nunca pomos no nosso discurso, como nas nossas ações, as formas de conflito com o sistema numa ordem hierárquica. Nunca acreditaríamos que uma ação depende do grau de violência que concentre para que se torna mais ou menos “anárquica”. Ao mesmo tempo, ainda assim, estamos absolutamente contra as separações por parte do/as anarquistas “tradicionais”, que defendem e justificam a ação violenta somente quando ela se expressa em massa numa manifestação, mas que a questionam e a desprezam quando é levada a cabo no escuro da noite por uma determinada minoria de companheiro/as. Também nunca concordaríamos com a estúpida separação que alguns “anarquistas” expressam em alguns países e que torna a violência anarquista aceitável somente quando é direcionada contra um alvo material, marginalizando e condenando, pelo contrário, a execução de um funcionário que faça parte do sistema, dando como desculpa o respeito pela vida humana. Para nós não existe respeito pela vida humana de um polícia, de um juiz, de um procurador, de um jornalista ou de um bufo.
    Nesse sentido, quando usamos o termo “luta armada” enviamos, basicamente, também uma mensagem àquele/as anarquistas da velha guarda que, com a sua etologia, querem acabar com a beleza da ação anarquista selvagem e confiná-la a formas de protesto contra o sistema mais calmas e mais massificadas. Para nós um/a companheiro/a anarquista pode usar desde papel e caneta a uma kalashnikov e bombas contra a autoridade e a sua civilização.
    Obviamente, por isso, hoje em dia apoiamos e promovemos qualquer ação que, da sua forma particular, ataque o sistema. Colagem de cartazes, publicações e blogs auto-geridos, manifestações militantes, sabotagem, ataques com pedras e tinta, expropriação de bancos, ataques à bomba, incendiamento de alvos estatais e econômicos, execuções de agentes da autoridade, são os instrumentos do nosso arsenal teórico-prático anarquista.
    Agora, o fato de usarmos o termo “luta armada” num grau mais elevado para assim quebraríamos o fetichismo da violência de baixa intensidade que é promovido pela tensão reformista da anarquia, leva a que nos confrontemos com os mal-entendidos que mencionamos anteriormente. Isso acontece porque não queremos ser definidos por associação à covardia de alguns e parecer algo que não somos. Daqui em diante pensamos em substituir a referência à luta armada ou pela explicação da sua polimorfia, ou pelo seu significado mais alargado de ação direta que inclui tudo o que queremos fazer.
    III) A rede da F.A.I./ F.R.I.
    Através de dezenas de células da F.A.I., existe uma substância, a substância de uma propaganda anarquista posta em prática. O aparecimento de cada vez mais células da F.A.I., da Indonésia ao Chile e da Inglaterra à Rússia, abre novas possibilidades de ação para a luta anarquista. A possibilidade de uma rede informal caótica de coordenação das células anarquistas é capaz de causar problemas sérios ao estável funcionamento do sistema. É uma ameaça a ter em conta que, contudo, não deve ser consumida em saudações mútuas e autênticas entre as várias células e os indivíduos que as compõem.
    É importante dar o próximo passo. Já falamos dos nossos valores comuns. Acreditamos nos mesmos valores da ação direta, que se expressa no aqui e agora da luta anti-estatista, que se encontra com o criticismo anti-social e com a solidariedade anarquista internacional, que não reconhece fronteiras nem países. Para além disso, apoiamos e promovemos o aformalismo como a forma mais autêntica de organização anarquista. Finalmente, é claro que todo/as nós que apoiamos a F.A.I. partilhamos a mesma loucura, caminhando contra os nossos tempos, indiferentes sobre o preço a pagar, seja ele qual for. Esse preço é a contradição ensurdecedora de um/a revolucionário/a anarquista. Um/a revolucionário/a anarquista que ama a liberdade e a vida, é alguém que arrisca perder as duas, sendo preso/a ou morto/a pelas balas da polícia.
    Mas esses momentos de ataque selvagem e rebelde contra a autoridade e contra os seus sujeitos merecem algo mais do que toda uma vida mergulhada em compromissos e abandono.
    O fato é que tudo isto foi escrito anteriormente num diálogo público que se abriu entre os círculos da F.A.I./ F.R.I.. Assim, não é suficiente ter simplesmente uma arma nas mãos, tal como é a F.A.I., mas é importante também que a saibas usar.
    IV) Fogo e Pólvora
    Daqui em diante, falaremos sobre a nossa estratégia.
    Primeiro que tudo, queremos dizer duas palavras sobre a proposta feita pelos nossos irmãos e irmãs da F.A.I. italiana no que se refere ao uso do símbolo das C.C.F pelos grupos da F.R.I., escrevendo na estrela anarquista o seu nome.
    Para nós o nosso símbolo com as cinco setas apontadas à autoridade, simboliza, no seu centro, a significância da luta anarquista internacional que pode ter lugar nos cinco continentes do mundo. Para além disso, o diferente tamanho das setas expressa a polimorfia da ação anarquista e a diferente intensidade com que é expressa de cada vez.
    Ao mesmo tempo, as cinco setas enfatizam a importância e o valor da F.A.I../ F.R.I., porque são como os cinco dedos de uma mão. Cada dedo pode, por si mesmo, vergar o inimigo, mas quando se juntam formam um punho que se inquebrantavelmente se levanta contra o sistema. A F.A.I./ F.R.I. é esse punho.
    Da mesma forma, as setas apontadas ao centro simbolizam a fusão das forças subversivas, resultando na fissão e difusão dos nossos ataques contra a galé da civilização moderna. A estrela com o ´A` anarquista simboliza o nosso coração que pertence à revolução anarquista.
    Assim, é para nós uma grande satisfação e orgulho ceder o nosso símbolo à F.A.I./ F.R.I. para que cada grupo ou célula da F.R.I. o possa usar livremente, pondo o seu nome sobre a estrela.
    Em relação à estratégia da nossa luta, todo/as nós que apoiamos a F.A.I. não esperamos que as coisas aconteçam por si e que assim cheguemos à revolução anarquista. Preferimos ser os fatos que serão a preocupação do sistema.
    Esta é a estratégia da luta anarquista minoritária. Até agora essa é uma luta que normalmente se encontra fragmentada e muitas das vezes é isolada e limitada às fronteiras nacionais de qualquer país.
    Uma importante exceção são os apelos internacionais à ação que são levadas a cabo por iniciativa do/as nosso/as companheiro/as. Fizemos um apelo do gênero durante o período do primeiro julgamento contra as C..C.F. e apercebemo-nos, com uma imensa alegria, que a semente da solidariedade encontrou um terreno fértil nas terras da Argentina, Itália, Rússia, Chile, Grécia, Indonésia, Espanha, Inglaterra, México, Austrália, Alemanha, Polônia, Áustria, Holanda, etc.
    Sabemos agora que a rede da F.A.I./ F.R.I. pode promover qualitativamente uma idéia desse tipo. Além disso, a substância da F.A.I. encontra-se no coração do desenvolvimento de um diálogo anarquista através das ações. Tal como foi escrito e bastante bem apontado pelo/as companheiro/as italiano/as da F.A.I., os ataques anarquistas nunca pararam, mas se estiverem unidos a uma rede informal internacional baseada no apoio mútuo, tornam-se mais visíveis e mais violentos ao mesmo tempo que se estendem a outros lugares e que as suas possibilidades revolucionárias se multiplicam..
    É nesse sentido que fazemos a nossa proposta. Pensamos que um diálogo de ação entre as células da F.A.I. deve, de tempos a tempos, procurar um tratamento temático comum. Mais especificamente, quando uma célula da F.A.I./ F.R.I. ataca um alvo pode, ao mesmo tempo, através do comunicado que servirá para assumir a sua responsabilidade, abrir um diálogo com as outras células. Por exemplo, vamos supor que alguns/algumas companheiro/as na Inglaterra escolhem atacar as câmeras de vídeo-vigilância que se encontram nas ruas ou os meios de controle e vigilância no geral. Se ele/as quiserem, através do seu comunicado, podem levantar a questão sobre as câmeras e sobre o controle tecnológico da nossa vida, analisá-la, apresentar as suas posições e propor à rede da F.R.I. que outras células tratem do mesmo tema. Obviamente, o resto das células e dos indivíduos (quem assim quiser) poderão levar a cabo ações equivalentes, i.e. ataques a lojas que vendam câmeras e sistemas de segurança, laboratórios de ADN, câmeras nas ruas, companhias de segurança, etc. Os comunicados que se seguirão não concordarão em absoluto com o primeiro comunicado que basicamente apelou à ação específica. Mas é assim que se encontra a substância de um diálogo de ação, quando as células, um pouco por todo o mundo, atacarem um alvo comum (i.e. câmeras de vídeo-vigilância) e ao mesmo tempo abrirem um debate de reflexão sobre essa matéria. Porque todas as discordâncias, concordâncias, objeções, análises, colocações, desenvolvem a nossa consciência enquanto indivíduos anarquistas, passo a passo. Seguramente, estas discussões que se seguem a uma tal prática, não têm nada que ver com o atraso de um velho anarquismo que se satisfaz ao consumir toda a sua “militância” em conversas teóricas volúveis em anfiteatros e a beber de um inofensivo estilo de vida anarquista alternativo.
    A F.A.I./ F.R.I. não se atrasa ao esperar na fila por uma próxima revolta social ou por uma próxima crise social. Toma o discurso e a ação nas suas mãos porque é aqui e agora o momento. Os temas a que nos podemos agarrar e que sejam a causa de ações da F.A.I. são ilimitados. Existe o militarismo – o exército, o nacionalismo – o fascismo, o controle tecnológico – os sistemas de vigilância, a polícia – a opressão, o espetáculo – os jornalistas, a destruição da natureza – a civilização, a exploração econômica – os bancos, a solidariedade anarquista – as prisões, e dezenas de outros temas que nos tornam inimigo/as declarado/as deste mundo.
    Claro que cada célula, antes de declarar uma proposta de ação internacional, deve incluir as estratégias e tornar as suas posições claras. É por isso que é especialmente importante que no diálogo que quisermos abrir, apresentemos o que pensamos sobre cada tema para assim compreendermos os seus diferentes conteúdos. Os anarquistas mais tradicionais geralmente expressam, através dos seus ataques, a sua oposição ao estado e ao capital, enquanto que nós como parte integrante de uma tendência anti-social e anarco-individualista expressamos, através do incêndio ou da explosão de um banco, para além da nossa raiva contra o estado, também o nosso desprezo para com uma sociedade que enquanto chora devido à crise econômica, ao mesmo tempo alimenta os bancos e se endivida através de empréstimos e de cartões de crédito, hipotecando a sua vida.
    Para nós a F.A.I./ F.R.I. é uma nova anarquia que nasce de uma superação da anarquia tradicional e dos seus procedimentos burocráticos.
    Esta proposta de ataques internacionalmente coordenados relacionados com um tema específico torna as sabotagens da F.A.I./ F.R.I. mais fortes e efetivas. Imaginem que dentro de um mês, por exemplo, trinta diferente empresas de segurança privada são incendiadas e explodidas em diferentes países. Seguramente, essa seria uma mensagem forte dada aos polícias privados e ao mundo da propriedade.
    É claro que devemos ter em mente que a autoridade escuta e lê todos os nossos comunicados-apelos. Não devemos ser apanhados desprevenidos e é por isso que devemos ter cuidado com a forma como uma ação da F.A.I./ F..R.I. é levada a cabo. Por exemplo, se um alvo específico é apontado, como poderiam ser as companhias farmacêuticas, é possível, especialmente nos países onde a F.A.I. tem uma presença e uma ação forte, que a polícia possa estar atenta a alvos possíveis, querendo deter o/as companheiro/as que preparem o ataque.
    É, por isso mesmo, importante que os alvos especializados sejam atingidos individualmente ou possam estar incluídos num tema mais amplo, i.e. os ataques contras as companhias farmacêuticas podem estar incluídos no tema relacionado com a nossa oposição à ciência que aliena a vida.
    È claro que a maioria dos temas e os alvos equivalentes (i.e. bancos, delegacias policiais, escritórios governamentais, igrejas, veículos de jornalistas, fascistas, etc.) são tão caóticos que se torna impossível estarem protegidos pelos guardas da autoridade.
    Daí querermos enfatizar que foi escrito antes que a F.A.I./ F.R.I. é uma rede de células e indivíduos anarquistas informal que atuam no anonimato. A coordenação que propomos (tal como foi proposta pelo/as nosso/as companheiro/as da F.A.I. no passado) não suprime de nenhuma forma a autonomia da cada célula. As ações coordenadas internacionalmente não monopolizam as características da F.A.I.. As células continuarão a atuar autonomamente e somente quando o quiserem e se assim o decidirem, organizarão e participarão num apelo internacional.
    Consideramos, também, que é bastante importante neste diálogo de ação que, para além dos indivíduos e das células da F.A.I., também participem anarquistas presos que apóiem a proposta da F.R.I.. É uma forma de qualquer um/a de nós que esteja preso/a e que por isso sinta falta de desfrutar da ação direta, permanecer ativo/a e “cúmplice” da revolução anarquista.
    Para o final deixamos um convite que queremos endereçar aos nossos irmãos e irmãs um pouco por todo o mundo. Falamos de incidentes que cremos que podem constituir um apelo dinâmico para a ativação da F.A.I./ F.R.I… O primeiro é uma notícia bastante desagradável que nos chega da Indonésia e que entristece os nossos pensamentos de forma ilimitada. É sobre a detenção de três companheiros (um quarto conseguiu fugir e é procurado) depois de um ataque incendiário a um banco. Os três companheiros tinham, de acordo com a polícia, na sua posse um comunicado da F.A.I../ Indonésia que expressava a sua guerra contra o estado, assim como a sua solidariedade com o/as anarquistas preso/as um pouco por todo o mundo.
    O segundo incidente tem que ver com dois casos de perseguição judicial que terão lugar no Chile. Falamos da perseguição feita ao companheiro Luciano Tortuga, que ficou gravemente ferido quando o mecanismo explosivo que carregava para colocar num banco explodiu. Os seus ferimentos feriram os nossos corações e o nosso amor pela anarquia acompanhá-lo-á em cada dificuldade que se apresente. Ao mesmo tempo, no dia 28 de novembro, cinco anarquistas vão a julgamento (Francisco Solar, Mónica Caballero, Felipe Guera, Omar Hermosilla, Carlos Rivero), acusados de ação subversiva.. Alguns/algumas dele/as foram detido/as anteriormente devido ao conhecido “caso bombas”, que é uma referência da estratégia opressiva do estado do Chile contra os anarquistas. Este/as companheiro/as são nosso irmãos e irmãs mesmo que nunca tivéssemos visto o seu rosto, mas conhecendo os seus textos e as suas idéias percebemos que a sua mente e o seu coração dançam num mesmo ritmo de liberdade e de revolução anarquista.
    Acreditamos que a questão da solidariedade anarquista internacional e da libertação do/as companheiro/as, é uma dos valores mais firmes e uma das prioridades estratégicas dos anarquistas de ação. É por isso que nós, a C.C.F. do período da F.A.I., convidamos todos os indivíduos e células da F.A.I./ F.R.I. a não deixarem os nossos irmãos e irmãs na Indonésia e no Chile sozinhos/as. Existem palavras que acompanham lindamente o fogo e pólvora, enviando um cumprimento e um sinal de solidariedade aos/às companheiro/as preso/as. Cada golpe contra as estruturas do estado e da sua sociedade e é um gesto factual de amizade para com aquele/as que estão ausentes das noites de fogo e que se encontram preso/as em alguma cela. Nesta ação específica de solidariedade anarquista internacional da F.A.I./ F.R.I., consideramos que cada símbolo da autoridade (bancos, companhias de seguro, delegacias policiais, tribunais, prisões, concessionários de automóveis de luxo, escritórios governamentais, câmeras, etc.) como uma maravilhosa oportunidade para ser destruído. O/as companheiro/as perseguidos na Indonésia e no Chile são acusado/as de diferentes ações entre ele/as, é por isso que o polimorfismo dos golpes em diferentes alvos é uma indicação de uma frente unida da nova guerrilha urbana anarquista e da nova anarquia. Para além disso, desta forma a organização desta ação fica facilitada, já que se facilita a escolha autônoma do alvo a atacar por cada célula correspondente e a preparação da F.A.I./ F.R.I. é testada na prática. Simultaneamente, é para os polícias impossível identificar os nossos planos, já que são caóticos e estão disseminados pelas metrópoles do mundo como um vírus de desordem e destruição. É claro, todo/as o/as companheiro/as devem despertar e não devemos subestimar o opositor.
    Organizando o caos tornamo-nos mais perigosos. A F.A.I./ F.R.I. é hoje em dia a nova esperança para a estruturação de uma Internacional Anarquista Negra, para espalhar globalmente a sabotagem e a ação direta. Por isso mesmo propomos o fumo das destruições, fogos e explosões, viajar do Chile à Indonésia, transmitindo a visão da F.A.I. sobre oceanos e continentes.
    Membros presos da Conspiração das Células do Fogo
    Domingo, 4 de Dezembro de 2011.           
    Tradução > PM
    agência de notícias anarquistas-ana
    o véu da cascata
    nesta noite de luar
    finas gotas frias
    José Marins
  • [EUA] “Vamos levar nosso irmão para casa e vamos lutar para derrubar este sistema”

    No último 9 de dezembro, mais de mil pessoas se reuniram no Centro Nacional da Constituição na Filadélfia para apoiar Mumia Abu-Jamal, apesar da intimidação de centenas de policiais que gritaram frases de ódio na rua. Em uma chamada telefônica, Mumia disse: “Pela primeira vez em quase 30 anos não estou fisicamente entre os condenados à morte, estou em outro setor chamado Bloco AC. As celas são idênticas as do corredor da morte, mas ninguém deste setor está condenado à morte, dentre eles, eu mesmo. É algo que se tem de acostumar, ainda estou me aclimatando”.
    Em relação a sua reação ante ao fato de que sua condenação à morte se converteu em prisão perpétua, ele respondeu: “Devo admitir que me sinto um pouco surpreso porque estava esperando a audiência, me refiro a uma audiência de sentença. Apesar de que muitos de meus amigos e simpatizantes e inclusive meus advogados diziam que era muito provável que não houvesse audiência, eu acreditava que sim. E segui me sentindo assim até que ouvi a notícia. Nestes dias estarei falando com meus advogados e avaliaremos exatamente este tipo de coisa. Sinto um pouco de decepção devido ao fato de que não haverá audiência, já que acreditávamos que poderíamos conseguir algumas coisas durante esta audiência e travar uma boa batalha, mas teremos que batalhar de outras formas. Quero agradecer a todos os que tem nos apoiado durante tantos anos”.
    O orador principal do evento na Filadélfia foi Cornell West, que falou da visão e compromisso social de Mumia, “um homem negro livre no corredor da morte”, cujo espírito não foi derrotado em 30 anos… Um homem que se atreve a dizer a verdade sobre o implacável legado da supremacia branca… Um homem que não se rendeu e não se vendeu, como muitos outros fizeram, um homem com uma visão holística e um compromisso fixo com os pobres e deserdados da terra, um homem que se nega a ser “niggerizado”, ou seja, tornar-se o tipo de pessoa que “ri quando não há nada engraçado e se coça onde não há coceira,… Se nega a tornar-se o tipo de pessoa que fique aterrorizada, traumatizada e estigmatizada”. Por outro lado, Mumia é um exemplo de “amor revolucionário, valor revolucionário e gozo revolucionário”, que sob ameaça de morte segue dizendo a verdade a uma geração submetida a “armas de distração massiva”.
    Em uma mensagem de vídeo, Desmons Tutu disse que na África do Sul houve uma sensação de alívio ao receber a notícia de uma pequena concessão no caso de Mumia Abu-Jamal quando a Suprema Corte deu parecer de que ele nunca deveria estar sentenciado à morte. Mas afirma que o veredito de culpado também é totalmente inaceitável devido ao preconceito racial e a má conduta da promotoria durante décadas, e que a imposição da sentença de prisão perpétua é simplesmente outra forma de morte. Tutu disse que por fim peritos tão destacados como o Relator Especial da ONU, Juan Méndez, reconheceram como uma forma de tortura as condições de isolamento a que Mumia esteve submetido durante 30 anos. Disse que devido às massivas injustiças cometidas contra ele, o caso deve ser descartado e Mumia deve sair livre imediatamente.
    Ao tomar a palavra no ato, Ramona África disse que quando Seth Williams anunciou na quarta-feira que não iria continuar buscando a pena de morte para Mumia, a seu lado esteve Maureen Faulkner. “Entendemos exatamente o que acontece aqui… Hoje mesmo eles odeiam Mumia ainda mais do que odiaram há 30 anos. Estão furiosos pelo apoio internacional que tem, estão furiosos pelo movimento constante que o apóia, estão furiosos porque um homem negro diz a verdade em oposição às mentiras deste sistema… Sabem que não podem ganhar em uma nova audiência… Mas isto não significa que abandonaram seus planos para assassinar Mumia… Há que se perguntar: por que estão tão desesperados, tão inflexíveis em seu afã de matá-lo? Não podem dizer o nome de alguém condenado pelo assassinato de um policial há seis meses, há um ano, há três anos. Não sabem seus nomes. Mas sabem o nome de Mumia Abu-Jamal. Por que estão tão cheios de ódio por Mumia? Por que não se sentem iguais com relação ao homem acusado de matar seu presidente John F. Kennedy…? Ou os assassinos de crianças? Mumia é nosso irmão e estamos muito preocupados por sua vida. Nunca deixaremos de lutar por ele… Nunca deixaremos de lutar contra este sistema podre. Queremos colocar fim a este tipo de injustiça. Vamos levar nosso irmão para casa e vamos lutar para derrubar este sistema… Da mesma maneira que eles estão resolutos em acabar com Mumia e com nós, nós temos que estar duas vezes, três vezes, dez vezes mais resolutos a fazer o justo e o correto”.
    O advogado de defesa Michael Coard afirmou que o sistema que tenta assassinar Mumia Abu-Jamal é o mesmo sistema que encarcera crianças e adolescentes durante períodos mais longos do que qualquer outro estado em qualquer país do planeta, e inclusive há crianças de 14 anos de idade sentenciadas a prisão perpétua. Ao criticar a pena de morte, Coard perguntou: “Se apoiamos a prática de contratar pessoal para assassinar os assassinos, por que não contratar pessoas para roubar os ladrões, para seqüestrar os seqüestradores, para estuprar os estupradores? Vocês poderiam dizer: Isto é obsceno! Isto é escandaloso! É o meu ponto”. A respeito do veredicto de culpabilidade, Coard afirma que Mumia é legalmente não culpável e factualmente inocente.
    Para ver fotos e vídeos do evento celebrado em apoio a Mumia no Centro Nacional da Constituição em 9 de dezembro, incluindo mensagens de Cornell West, Desmond Tutu, Amiri Baraka, Ramona África, Michael Coard, Immortal Technique, Goldii, acessem este site:
    Dois vídeos da deslumbrante performance dos jovens artivistas da Impact Repertory Theater no Centro Nacional da Constituição em 9 de dezembro:
    Tradução > Marina Knup
    agência de notícias anarquistas-ana
    Flor declarada
    o vento puxa da mão
    pra se perfumar.
    Masatoshi Shiraishi

  • [Espanha] Livro: “A estupidez do Nacionalismo por Lu Tao”, de Fernando Ventura

    Dois anos de ausência após a publicação de seu romance “Vida acidental de um anarquista”, e Fernando Ventura consegue novamente nos deleitar com uma nova obra de ficção.
    “A Estupidez do Nacionalismo por Lu Tao” é um livro de contos protagonizados pelo anarquista Lu Tao. O herói em questão é um benévolo assassino, espião, trovador e sensível poeta, a serviço da Princesa Hosani, a qual não deixa de dar maus conselhos.
    Através das aventuras de Lu Tao, acompanhado da princesa e de Jormungand, o britânico marica, o leitor vê como os vários mitos que nos atordoa e adormecem os poderosos: a pátria, o país, a história, a escola, o Estado, o racismo, o trabalho, a religião, a guerra, as sociedades secretas, as tradições, as armas de destruição em massa, e mais milhares de demônios são expostos nesta divertida fábula, que por vezes nos deixa com o sorriso no rosto, outras vezes as gargalhadas, e sempre nos faz pensar sobre as questões do nosso tempo.
    O livro foi ilustrado pela companheira Marisol Caldito e cada capítulo é encabeçado por um dos seus sugestivos desenhos, que nos coloca no ambiente. Em suma, uma obra cuja leitura eu recomendo por ser instrutiva, divertida e descontraída.
    La estupidez del nacionalismo por Lu Tao
    Ano de publicação: 2011
    Autor: Fernando Ventura
    Editora: Las 7 Entidades
    ISBN: 978-84-920698-8-0
    Páginas: 168
    agência de notícias anarquistas-ana
    selva de pedra
    condor solitário
    vôo triste
    Manu Hawk
  • [EUA] Uma Breve História de Ficção Anarquista

    Às vezes questiona-se qual forma de governo mais convém a um artista. Há apenas uma resposta para essa pergunta. A forma de governo que mais lhe convém é nenhum governo”  
    Oscar Wilde
    Eu costumava ver meus interesses em relação ao anarquismo e em relação à ficção enquanto coisas totalmente separadas, porque eu não sabia que de alguma forma as duas coisas coincidiam. Nenhum dos meus amigos ativistas estavam escrevendo histórias – pelo menos nunca me contaram – e eu ainda não havia percebido o quão rica é a história da ficção anarquista. Mas existem anarquistas, teóricos e ativistas, na ficção convencional – no entanto, sua visão política raramente é divulgada para o mundo. Existem escritores entre os ativistas, mas seus escritos raramente são distribuídos. E existe uma notável e ampla história de cultura multilíngüe anarquista ao redor do mundo, apesar de que a maioria destas estão escondidas pela obscuridade ou pelo tempo.
    A primeira vez que falei sobre anarquismo e ficção foi na feira do livro de Baltimore alguns anos atrás. No momento em que eu estava prestes a dar início à conversa, eu estava muito nervoso – eu sabia que eu iria falar para uma audiência que tinha pouco entendimento sobre o anarquismo – então resolvi caminhar entre as tendas do festival, tentando descobrir como introduzir o assunto. Foi então que eu vi uma tabuleta pintada à mão: “Os primeiros 100 romances de língua inglesa do século XX”, compilados pela Modern Library (Biblioteca Moderna). Três dos primeiros cinco romances foram escritos por pessoas envolvidas com o anarquismo (James Joyce e Aldous Huxley), sendo que havia, no total, oito romances na lista (por Anthony Burgess, Henry Miller, e Kurt Vonnegut). E isso não inclui os socialistas que estavam nesta mesma lista, como Jack London, nem mesmo os dois romances de George Orwell, que sobreviveu após ter sido ferido por um tiro no pescoço lutando contra os fascistas na Guerra Civil Espanhola.
    Quando eu li Huxley na escola, não me ensinaram o que ele quis dizer quando escreveu que o que o mundo precisava era uma descentralização radical de caráter “Kropotkiniano e cooperativo” na introdução da edição de 1946 do Admirável Mundo Novo. (Pelo que eu sei, esta introdução não foi mantida nas edições modernas fornecidas para nós estudantes.)
    Sem nem ao menos saber disso, você já leu ficção anarquista. Existem grandes “literatos” como Leon Tolstói (“Os Anarquistas estão certos em tudo… eles apenas se enganam em pensar que a Anarquia pode ser instituída através de uma revolução” [“Na Anarquia”, (On Anarchy) 1900]), Lawrence Ferlinghetti, Henry Miller (“[Um Anarquista] é exatamente o que sou. É o que fui a minha vida inteira”. [Conversações com Henry Miller, 1994]), Dambudzo Marechera (“Se você é um escritor de uma nação específica ou de uma raça específica, então vai se foder”.), Ba Jin, Carolyn Chute, J.M. Coetzee (“O que tem de errado com a política é poder em si”. [Diário de um Ano Ruim, 2007]), Jorge Luis Borges, William Blake, e outros autores populares de ficção como Alan Moore, Ursula K. Le Guin, Michael Moorcock, Robert Shea, Norman Spinrad, B. Traven, Kurt Vonnegut, Ethel Mannin, e Edward Abbey.
    Obviamente, minha pesquisa foi necessariamente limitada por barreiras geográficas e lingüísticas, e estas listas portanto são um tanto língua-inglesa e américo-centristas. Mas uma coisa que achei consistente é que, ao redor do mundo, a ficção fez e faz parte do nosso movimento e os anarquistas são e foram parte da história da literatura. Nos anos 1920 e 1930 na Espanha, haviam dois periódicos de ficção anarquista: “La Novela Ideal” e “La Novela Libre”, que imprimiu em torno de 50.000 cópias e incluía alguns dos mais importantes escritores daquelas décadas. Publicações das revistas continuaram durante a Guerra Civil Espanhola e só acabaram quando Franco tomou o controle do país.
    Muitos dos autores mais lidos, que todavia não se identificavam explicitamente enquanto anarquistas, tiveram laços muito próximos e simpatia pela nossa causa. William Burroughs escreveu “Cidades da Noite Vermelha”, um romance anarquista homoerótico. Albert Camus escreveu extensivamente para jornais anarquistas e usou sua influência literária para ajudar prisioneiros anarquistas. Franz Kafka participou de encontros anarquistas e manifestações em Praga, além de ajudar a fundar um jornal anarquista. Um dos primeiros romances de Philip K. Dick, foi uma história anarquista, intitulada “O Último dos Mestres”. George Bernard Shaw, dramaturgo e novelista, flertou com o anarquismo muito cedo em sua vida, antes de se fixar enquanto um social-democrata, e ele incluía anarquistas simpáticos em seu trabalho e era publicado por jornais anarquistas. Frank Herbert foi um crítico contundente do governo e da lei e viveu em um projeto de comunidade auto-sustentável. Upton Sinclair escreveu o livro “Boston” para defender os prisioneiros anarquistas Sacco e Vanzetti. JRR Tolkien escreveu para seu filho dizendo “Meu posicionamento político tende cada vez mais para a Anarquia (filosoficamente compreendida, significando a abolição do controle, e não homens barbados com bombas)”.
    Historicamente, numerosos ativistas anarquistas e militantes foram autores de ficção: Voltairine DeCleyre, Federica Montseny, Fredy Perlman, Eugene Nelson, Joseph Dejacque, Eduard Pons Prades, William Godwin, Louise Michel, e Antonio Penichet, todos eles e elas escreveram ficção complementando a teoria, ou adicionada à levantes armados contra o fascismo e contra o Estado.
    Mas, obviamente, a ficção anarquista não está limitada à pessoas famosas, e a cultura anarquista está envolvida na tentativa de quebrar hierarquias onde quer que elas se encontrem. Eu descobri dezenas de autores DIY (Faça Você Mesmo) anarquistas de La Novela Ideal, na minha pesquisa que deu visibilidade à zines e livros, em pequenos editores, que de uma maneira geral tentaram manter a narrativa viva no anarquismo – porque sempre fez parte do nosso movimento.
    Um problema que empesta a ficção anarquista, no entanto, é um problema que empesta muita ficção ativista. Ser capaz de contar uma história convincente mantendo uma crítica sólida e radical são capacidades diferentes, e a melhor ficção é escrita pelas poucas e raras pessoas que desenvolveram ambas as coisas. Como meu amigo coloca, política não é desculpa para arte ruim. Existem muitos romances didáticos que tentam usar a ficção para descrever uma sociedade anarquista, mas que se tornam rasos na escrita ou carecem de nuança e crítica. O meu favorito destes, pessoalmente, é o livro de Graham Purchase, “Minha Jornada Com Aristóteles para a Utopia Anarquista”: a sociedade descrita é fascinante e bem-pensada, mas a prosa é opaca e o enredo e os personagens são superficiais. Por outro lado, existem romances anarquistas escritos por escritores profissionais que descrevem nosso movimento e nossa cultura perdendo pontos importantes da nossa crítica, nos pintando enquanto vilões, ou então falhando na tentativa de retratar-nos com precisão. O livro mais famoso e difamador de anarquista-como-terrorista-louco é provavelmente o livro de Joseph Conrad, “O Agente Secreto”, o que é vergonhoso, visto que o pai de Conrad foi um político polonês radical que teve laços com Bakunin.
    Existem pouquíssimos romances anarquistas excepcionais, ou então não são bem distribuídos. De longe, o romance anarquista mais conhecido que passa em ambos os testes, é o livro de Ursula K. Le Guin, “Os Despossuídos”. Outros livros notáveis que retratam sociedades anarquistas são “A Quinta Coisa Sagrada”, de Starhawk, “Mulher na Margem do Tempo”, de Marge Piercy, “Bolo’Bolo”, de P.M., a trilogia de Marte, de Kim Stanley Robinson’s, e “Os Livres”, de M. Gilliand. Os anarquistas conseguiram esta amplitude enquanto personagens simpáticos (embora muitas vezes distorcidos ou idealizados) em diversos livros, como “Geek Mafia – Black Hat Blues”, de Rick Dakan, “Someone Comes to Town, Someone Leaves Town (Alguém vem à cidade, Alguém Deixa a Cidade)”, de Cory Doctorow, “54”, de Wu Ming, “Os Invisíveis”, de Grant Morrison, e “Contra o Dia”, de Thomas Pynchon.
    Eu lancei um livro em 2009 com a AK Press intitulado “Mythmakers & Lawbreakers: Anarchist Writers on Fiction” (Criadores de Mitos e Infratores da Lei: Escritores Anarquistas na Ficção): que retrata 14 entrevistas com escritores de ficção anarquista e que é também uma compilação de biografias de cada escritor de ficção anarquista que eu fui capaz de encontrar, vivos e mortos. Após o lançamento do livro, fiz uma turnê pelos Estados Unidos e pela Europa falando sobre anarquismo e ficção, e me questionaram diversas vezes sobre qual o meu romance de ficção anarquista favorito. Em um primeiro momento eu não sabia o que responder, mas eventualmente, acabei optando por “The Watch”, de Dennis Danver. “The Watch”, é sem dúvidas um dos melhores livros de viagem que eu já li, coloca Piotr Kropotkin em Richmond, Virginia, em 1989 e observa como ele lida com anarcopunks, trabalho precarizado, e as relações de raça. O livro conta uma história linda e discreta com personagens convincentes, e ainda introduz o leitor a alguns dos mais básicos conceitos políticos e filosóficos do anarquismo.
    E esse é, eu argumentaria, o poder da ficção anarquista. Uma vez atrás da outra, nas entrevistas que gravei, ouvi que a ficção é um método muito bom para questionar ao invés de oferecer modelos, uma maneira de fazer sugestões que não tem como objetivo serem interpretados como um código de leis, uma maneira de explorar os efeitos em potencial do anarquismo nas pessoas. E é claro, a ficção anarquista não é limitada à retratos de sociedades que visualizamos ou à lutas que vivenciamos. O que é útil sobre a ficção anarquista escrita é a habilidade de normalizar nossas visões de mundo: não-hierarquia, anti-autoritarismo, igualitarismo, etc. Podemos normalizar princesas que não só não necessitam serem salvas, como também não tem interesse algum no poder; podemos normalizar histórias contadas pelo ponto de vista da classe trabalhadora, e podemos normalizar as pessoas que normalmente são desconsideradas, transformadas em apenas mais um pela sociedade e pela própria ficção.
    Pesquisar as intersecções entre anarquismo e ficção tem sido uma toca de coelho fascinante. Comecei com “Os Despossuídos” e “V de Vingança” de Alan Moore, mas acabei encontrando muito mais, e me parece que cada pedra literária que eu desviro revela ainda mais anarquia. Eu costumava pensar sobre a atual situação como uma paisagem lúgubre e povoada apenas por um punhado de zineiros. Eu estava deprimido: o século XIX teve seus romances utópicos, o início do século XX teve ficção da classe trabalhadora, os anos 60 foi cheio de maravilhosos radicalismos políticos, e os anos 70 deu visibilidade para a ficção científica feminista, e trouxe sua política anti-autoritária e igualitária consigo. Mas, talvez porque estou olhando mais de perto, me parece que estamos passando por um despertar.
    A AK Press voltou a publicar novas ficções, e a PM Press, embora não seja exclusivamente de publicações anarquistas, tem publicado ficção anarquista também. O Crimethinc. fez confundirem-se as linhas entre ficção e não-ficção, e também se aventuraram em histórias infantis diretamente. Alguns escritores contemporâneos de ficção anarquista que valem a pena ser pesquisados são: Kristyn Dunnion, Jim Munroe, Fly, Dennis Cooper, Cristy C. Road, The Catastrophone Orchestra, Gabriel Boyer, Rick Dakan, Octavio Buenaventura, Carissa van den Berk Clark, Derrick Jensen, Mattias Elftorp, James Kelman, Gabriel Kuhn, Peter Gelderloos, e Lewis Shiner.
    Alguns amigos e eu começamos a trabalhar em um coletivo de publicação de ficção escrita por trabalhadores chamado de “Combustion Books” (Livros de Combustão). Sediados em Nova Iorque, estamos interessados em fazer penetrar idéias radicais na cultura do gênero “ficção” e quebrar os moldes do significado de ser uma editora anarquista..
    Nas minhas viagens, tenho me aproximado cada vez mais de pessoas que me contam que tem escrito por anos, livros à mão, zines e urls, e tenho me impressionado com a qualidade de alguns. Nós sempre nos subestimamos, mas nós, enquanto anarquistas, somos plenamente capazes de presentear à este mundo cultura útil, prática, e bem-trabalhada.
    por Magpie Killjoy
    Fonte: Fifth Estate 385 – Outono de 2011.
    Tradução > Malobeo
    agência de notícias anarquistas-ana
    aquela caverna
    triste, fria e sombria
    é seu espelho
    Marcelo Santos Silvério
  • [EUA] Johanna Fernandez visita Mumia Abu-Jamal na prisão Mahanoy

    Em 15 de dezembro, a professora Johanna Fernandez visitou Mumia Abu-Jamal na nova prisão. Descreveu em uma carta aberta que até agora ele continua recebendo suas visitas através de um plexiglass [janela de vidro], mas espera-se que isso mude com sua colocação proximamente na População Geral.
    Ele foi transferido para a nova prisão em 14 de dezembro às 4 da madrugada em um veículo fortemente blindado, todavia apesar da aparência “desumanizante” do veículo, “desfrutou a ocasião para ver os cavalos, vacas e as belas paisagens durante a viagem de 7 horas”.
    “Mumia narrou os últimos dias como um “turbilhão louco”. Na sexta-feira passada ele demorou seis horas para acondicionar livros, cartas e outras coisas, em preparação para o que ele achava que seria uma mudança para a População Geral na mesma prisão, SCI Greene. Mas o Departamento de Correções tinha outros planos… Nesse mesmo dia, 9 de dezembro, a sua chamada telefônica foi recebida no evento realizado no Centro Nacional da Constituição, na Filadélfia. Incentivados por Pam Africa, as 1.100 pessoas presentes no ato converteram os últimos 30 segundos da ligação telefônica em uma calorosa ovação. Essa mesma noite Mumia escreveu: “Minutos depois de desligar o telefone, eu senti uma descarga de energia pelas vibrações de amor que me veio através da linha telefônica. Uau! É uma sensação muito eletrizante!”
    Johanna informou também que atualmente Mumia está no “buraco”, ou o isolamento quase total. Não tem contato físico com outros seres humanos e só pode ter em sua cela “uma caneta de borracha, 8 folhas de papel e 8 envelopes – 4 dos quais ele usou para escrever cartas para a sua família e amigos”. Mumia só pode sair ao pátio uma hora diariamente e suas visitas estão restritas a uma a cada semana. A luz elétrica em sua cela está ligada o dia todo e só diminui um pouco à noite.
    Mumia disse que sente falta de seu antigo vizinho no corredor da morte. Embora não pudesse vê-lo ou manter uma conversa, “Sugarbear batia na parede de sua cela pelo menos 20 vezes por dia para cumprimentá-lo”.
    Ao ser transferido para a sua nova cela na prisão Mahanoy, “Mumia observou que quase todos os prisioneiros no “buraco” são negros, que o fez pensar das sábias análise de Michelle Alexander do encarceramento em massa de homens negros em todo o país”.
    Johanna Fernandez conta que “Mumia está consciente dos novos desafios deste novo período. E que se sente forte e otimista sobre as possibilidades da próxima fase da luta, tanto em sua vida diária pessoal como no movimento…”
    agência de notícias anarquistas-ana
    são areias brancas
    o terreiro de iemanjá
    saias rendadas brancas
    Pedro Xisto